“Cada criança tem o seu tempo.” “O pai também falou tarde.” “Menino demora mais.” Quem tem um filho que fala pouco escuta essas frases com frequência, e elas têm um fundo de verdade: o ritmo da fala varia bastante de uma criança para outra. O problema é que esperar sem critério pode fazer a família perder um tempo valioso, justamente na fase em que a criança mais aprende linguagem.

Saber o que é esperado em cada idade e quais sinais pedem avaliação ajuda a decidir com mais segurança, sem pânico e sem descaso.

Fala e linguagem não são a mesma coisa

Linguagem é a capacidade de entender e de se expressar, seja com palavras, gestos, olhar ou apontando. Fala é a produção dos sons das palavras. Uma criança de 2 anos que entende tudo, aponta, puxa o adulto para mostrar as coisas e usa poucas palavras está em uma situação bem diferente da de outra que não entende ordens simples e não tenta se comunicar de nenhum jeito.

Por isso, na avaliação, o médico olha as duas coisas: o que a criança compreende e como ela se expressa.

O que costuma acontecer em cada idade

As idades abaixo são referências, não provas. Há variação normal, e o que mais importa é ver a criança avançando.

  • Entre 6 e 10 meses: começa o balbucio com sílabas repetidas, como “ba-ba” e “da-da”, e o bebê vira a cabeça quando escuta a voz dos pais.
  • Por volta de 1 ano: atende pelo nome, aponta, dá tchau e pode dizer as primeiras palavras com sentido, como “mamã” ou “água”.
  • Por volta dos 18 meses: fala várias palavras, entende pedidos simples como “pega o sapato” e mostra partes do corpo quando alguém pergunta.
  • Aos 2 anos: junta duas palavras por conta própria, como “qué água” ou “papai foi”, e o vocabulário cresce rápido.
  • Aos 3 anos: forma frases curtas, conversa e é entendida pela maior parte das pessoas de fora da família.

Sinais de alerta

Alguns sinais são usados por pediatras e neurologistas como indicação de que a criança deve ser avaliada, sem esperar:

  • Não balbucia até os 12 meses.
  • Não aponta, não dá tchau e não usa outros gestos aos 12 meses.
  • Não fala nenhuma palavra aos 16 meses.
  • Não junta duas palavras espontâneas aos 24 meses, sem contar a simples repetição do que ouviu.
  • Deixa de usar palavras que já falava, ou passa a buscar menos as pessoas do que antes, em qualquer idade.

Outros sinais também merecem atenção: não responder quando chamam, não entender pedidos simples, repetir frases de desenho sem usá-las para conversar, fala que quase ninguém entende depois dos 3 anos e gagueira que piora, vem com tensão no rosto ou faz a criança evitar falar.

Primeiro passo: checar a audição

Toda criança com atraso na fala precisa ter a audição avaliada. Parece óbvio, mas muitas famílias deixam de fazer porque o teste da orelhinha deu normal. Ele é feito ao nascer e não garante a audição para sempre. Otites de repetição, com secreção atrás do tímpano, podem diminuir a audição por semanas ou meses, justamente na fase em que a criança aprende a falar.

A avaliação auditiva é feita com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo, com exames adequados para a idade.

Por que não vale esperar para ver

Os primeiros anos são a fase em que o cérebro está mais preparado para aprender a linguagem. Quando a família espera meses a mais por conta de um “ele vai falar na hora dele”, a criança passa esse tempo sem o estímulo dirigido de que talvez precise. Se no fim era só um ritmo mais lento, a avaliação não terá feito mal nenhum. Se havia outra causa, como uma perda auditiva ou o autismo, o tempo ganho faz diferença no apoio que a criança recebe.

Por que a fala atrasa

  • Atraso simples de linguagem: a criança entende bem, se comunica com gestos e se desenvolve normalmente nas outras áreas, mas começa a falar mais tarde. Parte delas alcança as outras crianças, e só a avaliação e o acompanhamento mostram se é esse o caso.
  • Perda auditiva, permanente ou temporária.
  • Transtorno do espectro autista, em que a dificuldade principal está na comunicação e na interação.
  • Atraso global do desenvolvimento, quando fala, coordenação e outras habilidades estão abaixo do esperado para a idade.
  • Transtorno do desenvolvimento da linguagem, em que a dificuldade com a linguagem persiste sem outra causa que a explique.
  • Apraxia de fala na infância, uma dificuldade de planejar os movimentos da boca e da língua para falar.
  • Pouca conversa no dia a dia, muitas vezes ligada ao excesso de telas.

Quando o neuropediatra entra

Em muitos casos, o pediatra e o fonoaudiólogo conduzem bem a situação. O neuropediatra deve ser procurado quando o atraso na fala vem acompanhado de outros sinais, como:

  • atraso para sentar, andar ou na coordenação dos movimentos;
  • pouca interação, pouco contato visual ou brincadeiras muito repetitivas;
  • perda de palavras ou de habilidades;
  • crises convulsivas ou episódios de olhar parado;
  • cabeça muito grande ou muito pequena para a idade;
  • corpo muito mole ou fraqueza;
  • pouca evolução apesar da terapia com fonoaudiólogo.

Na consulta, o neuropediatra levanta a história do desenvolvimento, faz o exame neurológico e avalia se o atraso na fala é isolado ou parte de um quadro maior. Quando há indicação, pede exames, como avaliação da audição, eletroencefalograma, exames de imagem ou genéticos. O trabalho costuma ser feito em conjunto com o fonoaudiólogo e, quando preciso, com o otorrino.

Para a consulta, ajuda levar a caderneta de saúde, o resultado do teste da orelhinha e de outros exames de audição, relatórios da escola ou do fonoaudiólogo e uma lista das palavras que a criança já usa. Vídeos curtos dela tentando se comunicar em casa também dão ao médico uma ideia mais fiel do dia a dia.

O que a família pode fazer em casa desde já

  • Narre o dia: “agora vamos lavar a mão”, “olha o cachorro latindo”.
  • Fale de frente, na altura dos olhos da criança, com frases curtas.
  • Espere alguns segundos para ela tentar pedir, em vez de adivinhar tudo antes.
  • Quando ela falar errado, repita a palavra certa com naturalidade, sem cobrar.
  • Leia livros com figuras grandes e deixe a criança apontar.
  • Cante músicas com gestos e repetição.
  • Reduza o tempo de tela e troque por brincadeira com gente.

Essas atitudes ajudam, mas não substituem a avaliação quando há sinal de alerta.

Avaliação do atraso na fala em Brasília

Se o seu filho tem algum dos sinais descritos aqui, ou se a dúvida está tirando o seu sono, uma avaliação ajuda a entender o que está acontecendo. O Dr. Marcos Estrela (CRM 2910-DF, RQE 1904) atende em consultório particular no Centro Clínico Oswaldo Cruz, SHLS 716, Conjunto F, Sala 604, Asa Sul. Para conversar com o consultório, use o botão de WhatsApp da página.