Costuma acontecer à noite ou no fim de semana. A criança está com febre, meio molinha no sofá, e de repente o corpo endurece. Os olhos ficam parados ou reviram, e braços e pernas começam a tremer. Ela não responde. Os segundos parecem minutos. Muitos pais contam depois que acharam que iam perder o filho ali mesmo.

Na grande maioria das vezes, o que aconteceu foi uma convulsão febril. É uma cena assustadora, mas comum na primeira infância e, quase sempre, sem consequência para o desenvolvimento da criança. Entender o que é, como agir na hora e o que vem depois ajuda a família a atravessar o susto com mais clareza.

O que é a convulsão febril

É uma crise convulsiva que acontece durante um quadro de febre, em criança que não tem infecção no sistema nervoso nem outra causa neurológica que explique a crise. Aparece em geral entre os 6 meses e os 5 anos, com mais frequência perto de um ano e meio. Algo entre duas e cinco em cada cem crianças passam por isso.

A explicação mais aceita é que o cérebro nessa idade ainda está amadurecendo e reage de um jeito particular à subida da temperatura. Existe também um componente familiar. Não é raro descobrir, na conversa, que o pai, a mãe ou um tio tiveram o mesmo quando pequenos. Muitas vezes a crise vem logo no começo da febre, antes de alguém perceber que a criança estava quente.

O que fazer durante a crise

A maior parte das convulsões febris dura poucos minutos e para sozinha. O papel de quem está perto é proteger a criança até que isso aconteça.

  • Respire fundo e olhe o relógio, ou peça a alguém que marque o tempo.
  • Deite a criança de lado, em lugar seguro, longe de quinas e móveis.
  • Afrouxe a roupa em volta do pescoço.
  • Não coloque nada na boca: nem dedo, nem colher, nem pano. A criança não engole a língua.
  • Não tente segurar os movimentos nem sacudir a criança.
  • Não ofereça água nem remédio enquanto ela não estiver bem acordada.
  • Se houver mais alguém em casa, peça que grave um vídeo curto. Ajuda muito o médico depois.

Quando os movimentos param, é normal a criança ficar sonolenta, chorosa ou confusa por um tempo. Mantenha-a de lado e acompanhe a respiração.

Quando chamar socorro

Toda primeira convulsão merece avaliação médica no mesmo dia, mesmo que a criança pareça bem logo depois. Algumas situações pedem ligar para o SAMU, no 192, ou ir direto ao pronto-socorro:

  • A crise passou de cinco minutos.
  • A criança não volta a acordar ou continua muito confusa depois da crise.
  • Há dificuldade para respirar ou os lábios ficam arroxeados.
  • A crise pegou só um lado do corpo.
  • Veio mais de uma crise no mesmo episódio de febre.
  • Há rigidez na nuca, manchas na pele, vômitos repetidos ou a criança parece muito abatida.
  • É um bebê com menos de 6 meses.

No pronto-socorro, a equipe examina a criança e procura a origem da febre. Pode ser uma virose, uma otite, uma infecção de garganta. Conforme a idade e os sinais, o médico decide se é preciso investigar uma infecção no sistema nervoso.

Simples ou complexa: a diferença que o médico procura

Os médicos separam a convulsão febril em dois tipos. A forma simples é a mais comum: a crise pega o corpo todo, dura menos de quinze minutos e não se repete nas vinte e quatro horas seguintes. A forma complexa tem pelo menos uma destas características: começa ou fica restrita a um lado do corpo, dura mais de quinze minutos ou se repete no mesmo dia.

Essa distinção muda o caminho. Na crise simples, em criança que se recupera bem e tem desenvolvimento normal, em geral não são necessários exames do cérebro. Na complexa, ou quando há algo diferente na história, o neuropediatra pode pedir exames como o eletroencefalograma, sempre com um motivo definido.

Baixar a febre evita a crise?

É a pergunta que quase toda mãe faz. Baixar a febre deixa a criança mais confortável, e isso tem valor. Mas os estudos mostram que dar remédio para febre não impede uma nova convulsão febril. A crise costuma acontecer justamente na subida rápida da temperatura, muitas vezes antes de alguém pegar o termômetro.

Por isso não é preciso acordar a criança de hora em hora para medir a temperatura, nem dar remédio fora do horário orientado pelo pediatra. Banho gelado e compressas frias também não previnem a crise e deixam a criança mais desconfortável. O que ajuda de verdade é a família saber o que fazer se a crise voltar.

Pode acontecer de novo? E vira epilepsia?

Cerca de uma em cada três crianças que teve convulsão febril terá outra em algum episódio de febre futuro. A chance é maior quando a primeira crise veio antes de um ano e meio, quando há casos na família ou quando a crise surgiu com febre não muito alta. Com o passar dos anos, isso tende a parar. Depois dos 5 ou 6 anos, a febre deixa de provocar crises na maioria das crianças.

Quanto à epilepsia, o risco é pequeno. A maior parte das crianças com convulsão febril simples nunca terá epilepsia. Esse risco fica um pouco maior quando as crises são complexas, quando já existia atraso no desenvolvimento ou quando há epilepsia na família. É nesse ponto que o acompanhamento com o neuropediatra faz diferença: ele pesa esses fatores com calma e explica à família o que esperar no caso dela.

Na grande maioria das crianças, o tratamento é orientação. Remédio de uso contínuo para prevenir novas crises raramente é indicado. Em situações específicas, o médico pode deixar um plano por escrito para o caso de uma crise longa, com o que fazer em casa enquanto se busca atendimento.

O que levar para a consulta com o neuropediatra

A consulta depois do pronto-socorro serve para olhar a criança inteira, sem a urgência do plantão. O médico quer saber como foi a crise, em detalhes, e também como a criança vem se desenvolvendo: quando sentou, andou, começou a falar, como está na creche ou na escola.

  • O vídeo da crise, se alguém conseguiu gravar.
  • Anotações com a data, a duração aproximada, a temperatura e o que a criança estava fazendo.
  • O relatório do pronto-socorro e os exames feitos lá.
  • A caderneta de saúde, com as vacinas e a medida da cabeça.
  • O que se sabe sobre convulsão ou epilepsia em parentes próximos.

Vale levar as perguntas escritas num papel. Com a criança no colo e a cabeça cheia, é fácil esquecer justamente o que mais se queria saber.

Avaliação depois da convulsão febril em Brasília

Se o seu filho teve uma convulsão com febre e você quer entender o que aconteceu e como agir daqui para frente, uma consulta com o Dr. Marcos Estrela, neurologista infantil (CRM 2910-DF, RQE 1904), ajuda a organizar essas respostas. O consultório fica no Centro Clínico Oswaldo Cruz, SHLS 716, Conjunto F, Sala 604, na Asa Sul. O atendimento é particular, sem convênio. Para combinar um horário ou tirar dúvidas sobre a consulta, chame o consultório pelo botão de WhatsApp desta página.